Tuesday, January 17, 2006

Correndo o risco de vos cansar...

Volto à gripe. Porque estes novos focos de doença na Turquia implicam uma nova análise do que se passa, em que mais e melhor informação é gerada, e continuo sem boas notícias. Esperemos que daqui a uns tempos me chamem de alarmista, serei o primeiro a dizer que sim e a suspirar de alívio. Até lá, e porque este blog é para os amigos, vou continuar a partilhar convosco o que me alarma. Desculpem-me os outros alguma imprecisão científica.

Como dizia, os virus desta família recombinam-se entre si podendo gerar uma quantidade enorme de novos virus (256 novos virus de 2 únicos "pais" em questão de minutos), com propriedades cruzadas tiradas ao acaso do reino de possibilidades de combinação dos 2 ADNs. Ou seja, tudo se passa a uma escala microscópica (dentro das células) e a um ritmo extremamente acelerado (o tempo de vida de uma célula é de dias, em média), em que se trocam genes e, chamemos-lhes assim, "estratégias".

Ao nosso ritmo humano, demoramos umas largas centenas de gerações (de 30 anos) a fixar uma mutação (alteração do código genético da célula, que implica a troca de uma sequência ou base no ADN por outra), a torná-la parte do código genético que passamos aos nossos filhos. É preciso que as células afectadas pelas mutações sejam células do nosso sistema reprodutor, dos óvulos e dos espermatozoides - senão não passam para o ovo. Despois é preciso que a mutação nessas células (feita ao acaso)permita ao ser resultante ser viável.

A mutação não pode prejudicar sistemas vitais, nem anatómicos, porque o nosso complexo desenvolvimento embrionário não permite grandes desvios. A esmagadora maioria das mutações que se dão nas sequências genéticas importantes resultam em morte do embrião. Muitas outras mutações se dão nas zonas de ADN que não são utilizadas, são carregadas nas nossas células como "lixo". Só uma parte infinitésima de facto resulta num embrião/ser vivo capaz.

E depois é preciso que este passe o exame da Selecção Natural. É preciso que a mutação pelo menos não prejudique as possibilidades de sobreviver do ser resultante, e permita que este chegue à idade de reprodução (digamos 15 anos em teoria, 20-30 na média civilizada?). Ora isto é complexo e demora muito tempo.

O H5N1 é código genético, não há cá complexidade alguma. Por isso produzem-se milhões em pouco tempo. Todas as combinações possíveis num dado momento enfrentam a selecção natural e as que se safam melhor reproduzem-se entre si. As que "funcionam" bem, e sobrevivem melhor que as outras, passam ao próximo teste em vantajem e trocam informação entre si, novo teste, e por aí em diante. A selecção natural ao nível microscópico segue a um ritmo alucinante, sempre em "direcção" à combinação melhor adaptada às condições do meio ambiente.

Ora bem, a estirpe de H5N1 que apareceu na Turquia parece que aprendeu uns truques em relação às outras estirpes que detectámos anteriormente em humanos. Por um lado, "aprendeu" a reproduzir-se eficazmente a 34ºC, que é a temperatura média de um nariz humano no Inverno. Por outro, parece que apareceu uma mutação que permite ao virus entrar nas células humanas com maior eficácia, infectando mais e melhor as células. E há razões fortes para desconfiar que este novo vírus, mais "inteligente", já se fixou nas aves selvagens, ficando por aí a aguardar uma oportunidade para atravessar a fronteira ave-homem e se recombinar, ganhar mais genes "vantajosos".

Para concluir:
"Moreover, both changes may now be fixed in H5N1 in birds, which moves H5N1 on step closer toward sustained human-to-human transmission" Recombinomics.

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