Wednesday, March 22, 2006

Vida selvagem



Esta vidinha feita à base de vida selvagem tem que se lhe diga. Começa por ser extremamente difícil do ponto de vista técnico por ser praticada em condições extremas, com poucos recursos materiais e humanos, e na maioria dos casos com pouca informação disponível sobre as espécies com que se trabalha. Não é bem "improviso" (improviso = perigo constante de vida, pelo menos com leões), mas pouco faltará.

Sacrifica-se a estabilidade económica, porque é óbvio que não se faz dinheiro a proteger espécies que 99% do tecido económico gostaria de ver pelas costas, para permitir a expansão das populações humanas e seus interesses económicos e sociais (barragens, gado, agricultura, etc). Quem quer pagar por trabalhos que não se "vêem"? Não cria mais-valias económicas? Então não existe.

Sacrifica-se a ideia de uma "carreira", porque o trabalho e as condições em que o faço são voláteis e extremamente instáveis, sempre à beira de ir por água abaixo - ou são as espécies que desaparecem, ou são as condições para estudá-las e protegê-las. As "medalhas" que colecciono a esse nível são internas, minhas, nossas no sentido de partilha com quem me tem ajudado e acompanhado, mas de pouco valem.

Sacrifica-se a estabilidade emocional, por não se ver qualquer túnel, quanto mais luz ao fundo de um. Quando desaparece um projecto, um estudo, uma espécie (e até um animal individual importante) mesmo que não me diga directamente respeito profissionalmente, parte de mim fica de luto. E não há nada que possa fazer. Sempre que morre um projecto, tenho de criar outro, e se esse outro fôr longe daqui (seja lá onde aqui é nesse preciso momento), então levantam-se amarras, arrancam-se raízes e "desaparece-se". A noção de vida social altera-se profundamente. Fruto da ambição? Talvez.

Nunca me deu vontade de desistir, porque tudo isto é fruto da paixão. Paixão pela justiça (que não é feita para humanos, quanto mais para animais), pela liberdade e direito à existência (afinal, sempre sou um filho do 25 de Abril), pelo risco (não necessariamente físico), pelas fronteiras (do conhecimento, da terra, de mim), e acima de tudo paixão pela Vida.

Neste momento, parece que o Okavango Lion Conservation Program vai por água abaixo. O Botswana não está interessado em animais selvagens, mais nos diamantes e no gado. Apesar da política anti-corrupção - Botswana has ZERO tolerance for corruption, lê-se num enorme painel à chegada a qualquer aeroporto - há dinheiro a trocar de mãos entre caçadores e membros da administração pública para nos pôr a andar dali para fora. Está tudo muito tremido, e temos guia de marcha para o fim de Abril. Temos de saír, apesar de estarmos a lutar para ficar e continuar a proteger os nossos meninos e meninas. O Vice-Presidente do Botswana apoia-nos, mas de momento parece impotente. Vão ficar um projecto e vários estudos a meio? Provavelmente.

Estamos a preparar-nos para levantar amarras e passar para outro lado, começar do zero, seja em Moçambique, Angola, Zambia ou África do Sul. Implica começar um estudo de 11 anos todo do zero. Mas aqui NINGUÉM desiste. Vamos para tribunal e para mais o que preciso fôr. Contem com muita luta. Mas contem também com derrotas quase certas. Faca nos dentes, sorriso nos lábios. Não nos hão de enjaular, está prometido.

P.S: Adeus Retsina, adeus Vouvray. Mais 2 mortes estúpidas. 33 to go.

1 Comments:

Blogger Joana said...

Bem, fogo, filhos da Mãe...

Nem sei que te diga, mas a minha experiência é que quando se fecha uma porta abre-se algures uma janela. Às vezes chega mesmo a ser um portão (daqueles de quinta, gigantes e pesados, mas por onde passa um camião).

É chato mandarem às urtigas um trabalho de anos, mas tenho a certeza que o trabalho vai continuar noutro lugar - com outros encantos, outros leões, mas o mesmo desafio...

....hoje, copos?

(a minha experiência tb diz que volta e meia é bom beber para esquecer ;op)

11:23 am

 

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