O centro do lince

Bom, agora o centro. Avança a olhos vistos, como vêem. Já se retirou quase toda a terra que precisamos para se fazerem os edifícios e os cercados para linces. O terreno é muito acidentado, e como tal uma boa parte do trabalho é criar superfície para se construir. Já temos as plataformas quase todas feitas, e já se puseram as fundações da clínica e laboratório, da cozinha e do edifício de cria artificial (onde criaremos linces "à mão"). O resto anda mais ou menos como previsto, "apenas" com um mês de atraso. Espera-se que a primeira fase (com os edifícios essenciais) esteja pronta no final de Dezembro. Deverá estar tudo concluído em Fevereiro de 2009. El Acebuche, em Doñana, está com 32 animais, eles que só têm espaço para 18. Temos de nos despachar. Ainda não chegou a altura dos acabamentos, em que passarei a viver lá para corrigir tudo o que seja perigoso / mal feito para podermos ter linces felizes em cativeiro no Algarve.
Ontem fui à obra, e mesmo antes dela existe uma aldeia chamada Vale Fuzeiros. Como era de tarde (era a segunda vez que voltava às Santinhas num dia, com 35ºC), resolvi ir a um dos dois restaurantes que ali existem, no meio de um casario que não pode albergar mais de 30-40 pessoas. Beber uma imperial, claro está, mas acima de tudo e pela primeira vez tentar falar com aquela gente e perceber como encaram o novo vizinho. O Sr. António Sequeira, dono do restaurante e membro da comissão de moradores que tem enfrentado a instalação de uma Linha de Alta Tensão (LAT), que teima em ali querer passar, foi amigo e resolveu falar.
Disse-me que sempre apoiou a construção do centro e que por isso tem sido muito criticado. Porque as pessoas da aldeia, na sua maioria reformados, lhe dizem que ele vai lucrar, claro está, porque hão de vir visitas e ele tem um negócio, mas que elas vão ver a sua tranquilidade ameaçada. Ao que ele responde, ah-pois-tá-claro, mas com o meu restaurante dou trabalho a pessoas e pago impostos e segurança social, segurança social essa que vocês (reformados) vão buscar ao fim do mês. Ou acham que o dinheiro nasce nas árvores?
Diz que o seu vale é lindo (e é), e que se passaram 10 anos em luta para ter saneamento básico (esgotos) e água canalizada em Vale Fuzeiros, porque é que agora só o deixam crescer em áreas onde ambos não chegaram ainda? Só se pode construir em prédios rupestres agrícolas no meio do nada? Não sou um fã de desenvolvimento desenfreado, mas fará sentido só deixar populações crescer onde não há condições mínimas para o efeito? Será melhor depois fazer obras de milhões, metros e metros de canos e caos, esventrando a serra à sua passagem para dar condições mínimas de habitabilidade a estas casas? Não sei, e vejo aqui o conflito latente que sei passar-se na maioria do nosso Interior. Sempre ignorado, este conflito. Há de dar bons resultados…
O que eu sei é que tem lágrimas nos olhos ao defender o seu vale. Ele que foi criado em Portimão, vagueou pela serra entre Silves e Monchique, tendo depois emigrado 10 anos na África do Sul. Aí fez família e dinheiro, antes de vir ajudar a construir a barragem do Funcho, bem ali ao lado do centro e de Vale Fuzeiros. Tem um restaurante onde trabalha a sua família e quer desenvolver o seu Vale. As lágrimas aparecem (olhos húmidos, pestanas coladas, não queria acreditar) quando fala na senhora inglesa, que apesar de ter virado mundo, resolveu ali instalar-se para os anos dourados, defendendo activamente o direito de Vale Fuzeiros a continuar a ser um paraíso.
O Sr. António é um homem na linha da frente contra a LAT e a favor das conquistas mínimas da civilização, tal como a senhora inglesa e eu, que tive de fazer um parecer para não me passarem a dita LAT por cima dos linces no centro. Acabámos como velhos amigos de guerra, a comparar cicatrizes e batalhas. Hei de levá-lo comigo a ver obra, como deve ser. Conto com ele para receber os linces e tudo que virá por arrasto. E não será pouco. Havemos de dar de comer a muita gente nos dois restaurantes de Vale Fuzeiros. Para que os reformados de Vale Fuzeiros tenham onde vir buscar as pensões, diz-me de forma provocadora, mas real na sua essência. Um bom começo de vizinhança.

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