Monday, October 17, 2005

19 de Dezembro de 2002

Bom, consegui chegar a Maun, ao acampamento, aos leões, e ainda não fui comido. Apesar de não ter ido de imediato em festa mal cheguei, acabei por ir jantar fora e beber uns copos com um inglês engenheiro electrónico e seus amigos no dia seguinte. E claro, levaram-me a um restaurante chamado... Caravela. Portuga, pois. Pertence a uns tugas sul-africanos e foi dos primeiros a estabelecer-se por aqui. Serve bacalhau (caríssimo), linguado, lulas, sardinhas, enfim, afinal sempre se come peixe nesta terra. Regado com Graça (vinho branco sul-africano), não fosse o calor e os mega-insectos e até podia estar na Nazaré. A noite acabou num pub (ao ar livre) a jogar snooker e na asneirada. Há pouca gente, o que faz com que toda a gente interaja sem grandes problemas.

Passei segunda e terça à luta com os burocratas (não consegui nada do que tinha programado). Passam o dia em reuniões(...) e não vão aos escritórios. As coisas positivas foram Gaborone ser uma transição útil entre a civilização e o mato, pela boa gente que conheci e pelas informações que me deram. Apanhei o avião (bimotor, e desta vez esperava uma chaleira com asas), conhecido por estas bandas como o "booze cruise" (cruzeiro alcoólico). Uma hora de amena cavaqueira, cerveja castle à descrição acompanhada por billtong (carne seca/fumada, vaca ou "bushmeat"), e o grande deserto do Kalahari, que ocupa dois terços deste país. Este pessoal despacha 2 litros em uma hora alegremente. Nem todos, obviamente, mas uma grande quantidade deles. Influências britânicas, suponho. Pode ser a paisagem deserta, árida, também...

Maun. Mais um aeroporto minúsculo mas bem arranjado, a pé do avião para o "terminal", malas despejadas à porta da pista. A Kate estava à minha espera, foi meter-me no carro e arrancar para a casa que serve de base para o projecto. No meio de um tumúlto a que já me habituei cada vez que vimos à "cidade", metemos tudo no land rover (compras para 15 dias e um pequeno exército, 8 pessoas, e as minhas malas no tejadilho), e fomos buscar mais três putos pequenos filhos do pessoal que nos assiste no campo, mais uma das mães. É um fenómeno conhecido por "African squash" - tudo ao molho e fé em Deus, entre os lusos. Duas horas e meia por entre mato e animais (deu para ver de quase tudo, de elefantes a mangustos), e chegámos ao campo.

O campo são duas grandes tendas do exército, uma como cozinha e sala de refeições mais dispensa, outra para sala de estar e escritório. Na cozinha temos dois fogões grandinhos, àgua corrente (quente e fria) que nos vem de uma perfuração, um frigorífico a gás, uma arca frigorífica que serve de dispensa, uma mesa enorme e uma decoração africana. Comunica com a outra tenda, onde temos de centrifugadoras a televisão e vídeo (têm cá mais de 400 vídeos!!!), mais uma mesa de snooker, as baterias e toda a panóplia associada aos painéis solares, o equipamento de imobilização e o todo importante bar. Serve também de
escritório e é sede de toda a discussão científica que para aqui vai.
Dormimos depois cada um na sua tenda (maior que o meu quarto, e ainda bem), com as nossas redes anti-mosquito, acopompanhados por um calor insuportável. Mãe, já acordo a horas decentes por causa disso, e às 10 estou na cama, ehehehehe.

Temos um chuveiro quase ao ar livre, e uma "casinha", conhecida como "long drop", um monumental buraco no chão que parece exactamente uma retrete dentro de uma casinha de bambu. As primeiras utilizações dão suores frios, mas apartir daí nada de especial. Não é muito agradável estar sentado a olhar pró mato a ver quando é que um leão nos apanha com as proverbiais calças-na-mão. Ainda não aconteceu. Também temos um campo de beach-volley (só se esqueceram da praia), um trampolim, uns quantos crâneos de animais variados a servir de decoração, os três jipes e o campo do pessoal assistente.

De animais, estamos francamente bem servidos. De aardwolves (primeira vez que vi um) a carraças vermelho-fluorescente, antílopes, gnus, zebras, girafas, elefantes, crocodilos, e leões a monte, entre outros. Especialmente insectos, como era de esperar. Escorpiões verdes, aranhas brilhantes. Trago fotos de tudo um pouco. Temos imobilizado leões, que encontramos usando os nossos aparelhos de recepção rádio para encontrar os animais com coleira, e já deu para recolher amostras de sangue, etc., de 10 animais desde que cheguei. Tenho sido muito bem tratado e tenho vindo calmamente a testar todos os exames que vou
precisar de fazer. Estamos todos muito entusiasmados com o futuro do
projecto, e mal podemos esperar que entrem os fundos a sério e nos possamos estender para os leopardos, as próximas (muito próximas) vítimas.

Bom Natal para vós, beijos e abraços

Rodrigo

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