O Gomoti vem aí!

Todos os anos, finais de Agosto / princípios de Setembro, a nossa área de estudo sofre uma transformação vital. Descem os rios. A região do Delta do Okavango está cheia de cursos de àgua temporários, que enchem mais ou menos consoante as chuvas em Angola. A água desce das regiões montanhosas, leva o seu tempo, e sem explicação aparente limita-se a aparecer. Ou não aparecer.
O Okavango é um rio diferente. Há uns milhões de anos, corria para um enorme lago onde é hoje o deserto do Kalahari. Depois de uma grande alteração nas placas tectónicas continentais, uma boa parte dos cursos de àgua que corriam para o Kalahari desviaram-se para o rio Zambezi, que desemboca no mar uns kilómetros acima da cidade da Beira, Moçambique. O Okavango é o único rio teimoso, que continua a trazer àgua como se fosse alimentar o Kalahari. Mas não chega lá. Desemboca num sem número de pequenos rios, que se espalham por esta zona como um milagre, inundando planícies à sua passagem e trazendo um grande número de animais com eles.
A riqueza do Okavango reside aqui: nas suas àguas permanentes, nos seus cursos de àgua sazonais, nas suas planícies temporariamente inundadas, e na vida toda que um sistema destes comporta. Para nós o rio traz animais, torna-nos os leões felizes (o que eles adoram ver animais beber àgua - o seu equivalente a um rodízio), e permite grandes pescarias. E uns cenários fantásticos para os "sundowners".
Ver descer o Gomoti, que passa a 100 metros do nosso campo, é uma experiência fantástica. Vem por pulsos, ora mais depressa ora mais devagar, demora a encher as charcas maiores, hoje ainda se consegue passar o rio aqui, amanhã já passou uma manada de hipopótamos e ficamos atolados - há que encontrar outra passagem. Fazemos apostas sobre a data exacta em que o Gomoti chegará à frente do campo para dar início à época de pescaria.
Agora o Gomoti está a transbordar, a inundar planícies imensas. As primeiras chuvas chegarão daqui a pouco tempo, em pleno Verão, e daí para a frente seguir leões torna-se impossível - de atolanço em atolanço, com carros atolados ao lado dos carros que foram ajudar a desatolar, noites passadas no mato à espera de mais candidatos à lama. É esperar que a chuva abrande e que chegue de novo o Outono.

1 Comments:
grande lição de história e geografia que acabei de ler... ainda bem que encontrei este blog.
vou passar a vir para estes lados mais vezes!
5:53 pm
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