Sweet sweet Andalusia

Desde que comecei a trabalhar para a conservação do lince-ibérico, o argumento mais vezes usado para justificar a continuada indiferença das nossas autoridades sempre foi o mesmo. Nunca a Andalusia nos vai "dar" linces, para quê insistir e gastar dinheiro no tema? Já tinha sido esse o caso noutras oportunidades, com outras espécies. O que teria o lince de diferente?
Sempre pareceu ser esse o caso, mas não obstante, nós os técnicos continuámos a fazer o nosso papel. Planear, planear, planear, comunicar, participar, pressionar os técnicos andaluses no sentido de os fazer acreditar que somos capazes. Convencidos os técnicos, foi acreditar que estes seriam capazes de fazer ver aos políticos andaluses (que tantas e tantas vezes, mesmo em seminários internacionais, apresentaram o lince como "o lince andaluz") de que precisavam de nós. Conseguimos também o apoio da comunidade internacional, através do Cat Specialist Group. Sim, são os melhores do mundo em felinos, vêm de todas as partes, e não têm qualquer poder institucional. São cientistas. À séria.
Não sei o que foi, o que fez a diferença, mas já está: ontem os andaluses e os espanhóis concordaram oficialmente em dar-nos linces para que os ajudemos. A verdade é que precisam de nós, do nosso espaço, do nosso país, senão não têm onde pôr linces suficientes para salvar a espécie. Para a semana, aquando da Cimeira Ibérica de 2006, Portugal vai assinar o acordo que nos vincula a tudo isto. Um dos melhores projectos de conservação do mundo e arredores. E eu, como calculam, estou nas nuvens, mas rodeado de preocupações. Agora temos o Cat Specialist Group, os técnicos andaluses, os técnicos espanhóis, os políticos andaluses, os políticos espanhóis e os políticos europeus conosco. E teremos para a semana Portugal vinculado e a ter que prestar contas.
Sempre desconfiei que os mais prováveis de nos enterrar são os nossos. Os derrotistas. Os incapazes. Os políticos. Ainda vou ter de passar a maior vergonha da minha vida a justificar porque não conseguimos cumprir com o que prometemos. Ou não, se depender de mim. E para que raio queremos nós linces? Agora não há mais desculpas. Sweet sweet Andalusia...
P.S: Acabei de vir da Andalusia, de Doñana, de onde tudo se controla. De uma mega reunião de técnicos de todo o mundo que trabalham em projectos de reintrodução de felinos selvagens. E todos os "internacionais" dizem o mesmo: não há projecto como este. Parabéns a todos, dizem. Eu digo obrigado Astrid Vargas, a super-mulher que já salvou 3 espécies e conduz a salvação da quarta. Sem ela não se fazia nada. Fica para outro post?

3 Comments:
Para mim, claro, Parabéns ao Rodrigo! My own wild cat heroe!
4:04 pm
:-) De repente apercebi-me que aquela velha máxima de um qualquer projecto para nascer tem de ser lá fora, e só de pois de existir lá fora é que Portugal toma atenção, se aplicou outra vez!! :-p
7:39 pm
PARABÉNS!!!
inês faus
11:47 pm
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