Estado a pagar pelos animais feridos?

Estalou por aí uma "polémica" entre os ambientalistas deste país, porque o Estado recusou financiar dois centros de recuperação de fauna silvestre, mantendo apenas o seu apoio a 3 (Norte, Centro, e Sul). Muita gente considera que é deitar dinheiro à rua, outros consideram estes cortes como a morte do sistema de recuperação de animais.
Ora bem, será que o estado (ou seja, todos nós) deve pagar por todo e qualquer animal selvagem / silvestre ferido que apareça? Que espécies se tratam, como, quando, com que objectivo, e com que recursos? O que quer dizer tratar e o que quer dizer recuperar um animal selvagem ferido? O que fazer com aquele pássaro que apanhamos na rua ferido, e do qual temos pena?
Publiquei este texto na lista Ambio. Aqui fica para os mais interessados:
Parece-me que o objectivo primário de um centro de recuperação, adicionando ao que foi escrito pelo Henrique Pereira dos Santos, é tentar tratar animais não domesticados feridos para os tentar devolver ao ecossistema em condições de saúde óptimas para a sua sobrevivência. Além disso, há que devolvê-lo ao campo no sítio certo à hora certa, o que implica procurar locais de solta com habitat adequado, ameaça predatória mínima (incluindo a exercida pelo homem), e livres da possibilidade de agressão territorial por conspecíficos. É uma tarefa difícil, cara, e com taxas de sucesso relativamente baixas, como bem sabe quem já trabalhou num centro desta natureza.
A maior preocupação que um centro deve ter é o bem estar do animal recolhido. Se tem hipóteses de se recuperar (tratar - soltar - sobreviver a longo prazo na natureza), procede-se ao tratamento. Se não, eutanasia-se, no próprio interesse do animal. Concordo com o HPS quando diz que condenar um animal não domesticado ao cativeiro permanente não é do seu interesse e não respeita o seu bem estar - salvo se o animal for valioso geneticamente e possa participar em programas de recuperação de espécies ameaçadas, ou em programas educativos de relevância. Concordo também que lançá-lo ao campo à morte certa, sem hipóteses de sobrevivência, é um desperdício de tempo, dedicação e recursos, para além de ser claramente cruel. A estas preocupações junto ainda uma outra, muitas vezes (perigosamente) descurada, a de lançar animais aos ecossistemas com agentes infecciosos adquiridos em cativeiro - a concentração de animais nos centros, para mais em condições de saúde periclitante, facilita a transmissão e incubação dos mesmos. O potencial impacto da solta de um agente infeccioso "novo" ou particularmente insidioso num ecossistema é enorme, e pode ter consequências catastróficas.
Se se tratam só espécies ameaçadas, se também daqueles cujo ferimento resultou da acção do Homem, ou ainda qualquer animalsinho que apareça (incluindo gatos e cães ferais) depende dos recursos disponíveis. Concordo que a prioridade deve ser dada às espécies ameaçadas, e dentro dessas aos animais com boas hipóteses de recuperação, e que deve ser o Estado a assegurar o esforço despendido no interesse de todos, ou seja, na defesa dos nossos ecossistemas e biodiversidade. A mim parece-me defensável também que se recuperem animais de outras espécies cujo ferimento resultou da acção directa do Homem, desde que com hipóteses óptimas de recuperação, caso os recursos o permitam, e se a sua solta não prejudicar o ecossistema do local escolhido. E não me parece que pese assim tanto no orçamento dos centros de recuperação / ICN / OE.
Não me parece no entanto defensável responsabilizar o Estado pelo tratamento de qualquer outro animal. Esse papel deve ser reservado às associações de defesa dos animais, ONGAs, faculdades, universidades, etc. E mesmo assim acho que é difícil defender eticamente o elevado grau de ingerência / interferência humana que implica tratar todo e qualquer animal, independentemente do resultado final e respectivas consequências para o seu bem estar, ecossistemas, etc. Custa-me afirmar que, apesar de tudo, na grande maioria dos casos ser humano (ou eticamente responsável) implica eutanasiar o animal ferido. De acordo com a minha experiência e consciência, é isso que na maioria dos casos significa respeitar o interesse dos animais recolhidos. E pelo caminho, ajudar a conservar e defender a natureza e a biodiversidade.
Em jeito de conclusão, defendo que os centros de recuperação operados / financiados pelo estado devem dedicar-se primariamente a recuperar animais com hipóteses razoáveis de sobreviver a longo prazo na natureza; e que cada centro / unidade de reabilitação deve definir que espécies, idades, números totais e tipos de ferimentos pode receber consoante as suas instalações e as habilitações do seu 'staff', organizando-se em rede com outros centros, nacionais e internacionais. Deve concentrar-se na recuperação e reintrodução de espécies ameaçadas, e só depois na recuperação de outras espécies, consoante os recursos. Tudo o que exceda estas competências não é unânime, está sujeito a uma grande diversidade de opiniões e tem utilidade discutível, e como tal não deve ser da responsabilidade de todos nós, ou seja, do Estado.

2 Comments:
ehehehehe... ainda ninguém comentou este post? tá tudo a engolir em seco... Eu estou contigo!!! SELECCIONAR OBJECTIVAMENTE ANTES DE SUBSIDIAR!
11:43 am
Estou de acordo contigo!
abraço
nuno
6:30 pm
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