Friday, December 16, 2005

A Kate



Quando conheci a família Nicholls (na verdade, só a Kate é Nicholls, os filhos têm o nome dos pais) fiquei pasmado (visgolho) com a naturalidade com que uma ex-actriz do Royal Shakespeare Theatre, tendo tido os filhos que sempre quis, passando pela assistência social a prisões de mulheres e pelos bancos da biblioteca da Universidade de Oxford, se atira para África assim. Foi para o Botswana há 10 anos (com 40) trabalhar para a Women Against Rape, uma associação que aconselha e abriga mulheres vítimas de violação, que pelo Botswana (e outras partes de África) é um acontecimento quase banal. O que tem de anormal é a Ms. Nicholls ter levado consigo 5 filhos, entre os 17 e o ano de idade.

Com eles viveu em quintas de crocodilos, e criou-os na rua e no mato, com outros "expats". Saiu da WAR para seguir a paixão que tinha pela vida e a evolução, que lhe ficou dos 'tutorials' que Sir Richard Dawkins teve a amabilidade de lhe dar em Oxford durante os anos em que trabalhou na prisão local para mulheres. Levou-os para o mato, onde os preparou para, entre outras coisas, a entrada na faculdade. O resultado foi que o Travers(20) e o Angus(19) estão em universidades de renome nos USA, a mais velha já é psicóloga (27), a Maisie(17) está às portas da Universidade de Glasgow, e o Oakley tem 12 anos e agora estuda em Joanesburgo.

Trabalha que nem uma moura e ninguém conhece melhor aqueles leões que ela. Tem um feitio medonho, de extremos, uma vivacidade intensa, emocional e carinhosa mas de repente irascível. E quando digo irascível, falo de esvaziar uma tenda de campanha cheia de pessoas em menos de 2 segundos. O visado pode preparar-se para 20 dos piores minutos da sua vida. Mas isto tudo puro, teatro (e décibel) na forma mas não no conteúdo, que depois amaina e consegue-se chegar à razão. De gestos grandiosos (teatrais) e conversa afiada, uma inteligência e sapiência que vem da vivência e dos milhares de excelentes livros e conversas, não só dos bancos da escola privada que frequentou na velha Londres.

Às vezes hesito em contar que a Kate, tragicamente, foi violada por 3 "nativos" (não se sabe a nacionalidade, pode ser zimbabwe ou botswana) num fim de tarde em Maun há 3 anos, caminhando sozinha para casa (talvez a única vez que tal aconteceu). Espancaram-na, quase a mataram. Deixaram-na à beira da estrada de calacarite, onde foi encontrada e socorrida. Físicamente recuperou num ápice e por milagre não apanhou o HIV. Foi recuperada de uma forma extraordinária pelo hospital de Maun. Demorou a curar a cictriz psicológica, mas ultrapassou esse período negro e ainda a tempo de recuperar o Pieter do acidente de viação que por um pêlo não lhe custava a vida. Dias e noites sem dormir, meses a fio a remendar alguém que devia estar morto.

Hesito, mas não devia hesitar. Ela recuperou e assume o que se passou com mais coragem e sucesso que toda a família. É uma mulher extraordinária que me tem protegido e acarinhado (salvo alguns espancamentos verbais de ficar verde), e que me trata como se fosse dos dela. Que me estimula intelectualmente porque dispara 20 perguntas fascinantes por hora. Obriga-me a trabalhar bem porque não perdôa uma falha, e é lindo partilhar os resultados do trabalho com ela. Para mim, um monumento à Mulher. Um pilar na minha vida. Pena não ter uma fotografia que lhe faça justiça.

4 Comments:

Blogger sushi lover said...

bem...

uau

(I'm speechless)

(já não estou)

quem me dera ter metade da coragem e brio da Kate

6:54 pm

 
Blogger Rodrigo said...

E terás, se a vida te levar a precisar dessas qualidades para sobreviver. O que é preciso é andar para a frente, digo eu.

7:04 pm

 
Anonymous Anonymous said...

Por acaso n precisam de uma psicóloga aí no Okavango?
é a segunda vez que leio este teu post e como desafio de ano novo decidi perguntar ;)
faus

1:13 pm

 
Blogger Rodrigo said...

Pessoas de coragem e determinação (psicólogas ou não) são sempre necessárias em África. Porque não Moçambique ou Angola, que bem precisam (não de paternalismo, mas de parcerias e gente para trabalhar)?

4:03 pm

 

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