A equipa de limpeza

A razão pela qual tudo funciona no Okavango é simples: nada fica por aproveitar, não há nada que se estrague. Não cai um corpo por aqui que não seja de imediato aproveitado por uma série inacreditável de bicharada, numa ordem mais ou menos estipulada que depende da oportunidade. Quem tem maior precedência sobre tudo o que está morto é, sem dúvida, o leão. Os leões aprenderam, como os outros necrófagos e predadores, a seguir os abutres onde quer que eles voem. Há uma diferença grande entre um vôo normal de um bando de abutres, o vôo do mesmo bando na aproximação à àgua, e o seu vôo por cima de uma carcaça de um animal - formam quase uma nuvem em espiral apertada, descendo e subindo frenéticamente. São quem dá pelas carcaças primeiro e quem informa todo o mundo da sua localização. Nós, investigadores, seguimos também os abutres na esperança de rever leões em "festa" e estudar as suas interacções com outros animais.
Quando um leão chega a uma carcaça, tudo espera. Chegam depois as hienas, que terão acesso à comida assim que o seu número seja suficiente. São necessárias em média 5 hienas para correr com um leão, e assim que este rácio é atingido, estas passam ao ataque. Os leões ainda protestam, mas chega uma altura em que já não compensa a dôr de cabeça, pelo que deixam a carne para outros. As hienas comem (por ordem hierárquica), e assim que a concentração de hienas baixa, chegam os chacais. Os abutres saltam de pé para pé de impaciência, e com chacais já se conseguem bater. Assim haja abutre suficiente. E passam estes ao ataque. Se anda um leopardo pelas bandas, este há de se meter algures entre as hienas e os chacais. As chitas fazem a mesma coisa.
A verdade é que, apesar da impaciência, sem hienas, chacais e outros os abutres não conseguem chegar a partes suculentas do animal morto. Precisam que alguém faça o trabalho duro de partir ossos, arrancar pele, tudo coisas que com um bico não ficam facilitadas. Uma carcaça de elefante dá de comer a um número enorme de animais por 4 dias no mínimo, e assim que não restar um fiosinho de carne passa o mundo microscópico ao ataque. Em pouco tempo só ficam os ossos. A sequência alternada de animais, uns melhores para limpar isto, outros melhores para arrancar e partir aquilo, garante que não sobra uma grama por aproveitar. Dá tempo e alimento para leões irem e virem, hienas irem e virem, tudo comer e regressar a comer duas, três vezes. À noite (especialmente de lua cheia) é um espectáculo indiscritivel! Além da interacção entre espécies diferentes, também se aprende muito sobre como se relacionam hienas entre hienas, leões entre leões, etc. E não ficam restos para contar a história.

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