Frustração

Pois ontem lá foram sua Excelência o Presidente da República, o Secretário de Estado do Ambiente, o seu homólogo do Turismo, o Presidente do ICN (mais respectivos séquitos como vos dizia) e imprensa à Malcata. Para promover o Turismo de Natureza, os valores naturais e de conservação e o seu papel no desenvolvimento sustentável do país, como nos comunicou o Presidente. Pelo meio, e como ténue elo de ligação, o lince-ibérico - com o papel preponderante que tem quer a nível de ameaça quer a nível de cobertura nos media.
A Malcata tem hoje 7 trilhos de natureza (5 dos quais pedestres), 3 empresas de turismo licenciadas para fazerem passeios e outras actividades ecoturísticas que lucram dos mesmos, tem a fauna e flora explicada e identificada em painéis espalhados pela Serra, e sinalização adequada. Podia ser um parque espanhol pela forma como promove, protege e trabalha a Conservação da Natureza. É claro que eu sou suspeito, uma vez que é a Reserva Natural que me emprega. Mas emprega-me com o objectivo específico de recuperar as populações nacionais de lince-ibérico - razão pela qual a Reserva foi posta no papel em 1978 e em prática nos anos 80. Continua a querer cumprir o seu objectivo e é para ele que trabalha. A recuperação do coelho e do habitat já começou há muito, já se gastaram centenas de milhares de euros (europeus e nacionais) e a área é considerada como das melhores a nível ibérico por espanhóis e portugueses. Só faltam os linces. E para mais desenvolveu um viveiro de árvores que tem e terá cada vez mais um papel fundamental na recuperação de áreas ardidas por todo o país e, pasme-se, fora dele. Faz-se um trabalho sério, disso não tenham a menor dúvida.
Porquê esta insistência com o lince? É um predador de topo, logo aquele sobre o qual as mais pequenas alterações nos ecossistemas têm maior impacto. Isso faz dele a melhor espécie-sentinela do matagal mediterrânico, que nos avisa de imediato quando alguma coisa está a correr mal – funciona como um alarme precoce. Durante anos não se ligou a isso, e como consequência ficámos sem linces. E com o ecossistema profundamente alterado. Hoje trabalhamos diariamente para inverter essa situação. Porque qualidade do ecossistema = presença de linces, ter linces garante-nos qualidade de vida. Já para não falar da responsabilidade que é ter de salvar um património que é universal. Não só português ou espanhol. Não os chateava se se extinguisse o leão? Ou a águia? Ou o pinguim imperial, tão em voga? (já trabalhei com eles e confirmo que são maravilhosos!)
Mas não só. Ter um ecossistema equilibrado e de qualidade ajuda a promover o Turismo. Um actividade que já representa 12% da economia do país, e que vive à base da nossa história, cultura e paisagem - ou pensam que o pessoal joga cá golfe porque a relva cá é melhor? A agricultura beneficia, sobretudo a biológica, do selo de garantia que lhe dá o lince - quem não quer produtos vindos da terra onde vivem os linces? Linces = ecossistema equilibrado = produto agrícola de melhor qualidade. É simples. Ainda mais simples é a relação entre a imobiliária e o ambiente. Está encontrada a ligação (em países a sério) entre a proximidade de um terreno a uma reserva ou habitat de qualidade e o seu valor de mercado. Porque não cá?
Portanto, não será de todo errado inferir que o lince não só ajudaria a manter o ecossistema de boa qualidade, como melhorava a qualidade de vida dos habitantes e a economia das regiões em que se encontrasse.
Mas que disse o Presidente da Câmara de Penamacor (o segundo mais atrasado concelho de Portugal) diante das câmaras e microfones, quando todas estas personalidades e figuras de estado se deslocaram à “sua” reserva para a promover? “Vêm os técnicos do litoral, onde destruíram o que tinham, para aqui ensinar-nos a gerir a nossa reserva” (esquecendo-se inclusivé que Sampaio e secretários de estado são de lisboa ou litoral); “A reserva criou enormes expectativas que não foram cumpridas” = 7 novos trilhos, empresas a trabalhar e trazer visitantes, recuperação do abutre negro (extinto desde os anos 30) e outras 11 espécies. “É preciso abrir a reserva à população local” = só 8% da reserva é de protecção total, o resto está aberto, com ou sem algumas limitações. E muito mais disse da mesma qualidade. Quer, provavelmente, pinheiros, eucaliptos e caça dentro da reserva. Que, com 16.000ha, está rodeada de pelo menos 30.000ha de terrenos só para a caça, e muito mais para explorações florestais.
Em vez de aproveitar a visita para PROMOVER a sua região e a sua Reserva, não. Ofendeu e atacou toda a gente. De tal forma que as televisões que vi escolheram não passar nada do que se disse na ocasião, suponho que por ser de tão baixo nível. Resultado? Perde ele e perdemos todos. E ainda puxou do “sei que os autarcas são considerados uma espécie de bandidos”. Pois são. Nem sempre por serem corruptos, mas por serem profundamente incompetentes, atrasados, mal formados e prejudiciais às suas regiões. E é com isto que temos de trabalhar. Que frustração, pela oportunidade de ouro que se perdeu. E ainda disse que as reservas e parques estavam melhor se geridas pelas autarquias. Aqui não me atirei para o chão a rir por respeito a Sua Excelência o Presidente da República. Que foi um exemplo acabado de pedagogia e lá deu a volta ao texto de forma construtiva. Vou ter saudades dele. Bem haja, Senhor Presidente!

2 Comments:
bolas... tanta expectativa.
o q mais custa é o "é sempre assim"...
o q importa é n baixar os braços e sei q n vais!
12:04 am
Mas PORQUÊ ser burro? O que ganhou ele com isso? Provavelmente os votos dos habitantes, que é exactamente isto que querem. Temos muito trabalho pela frente no que diz respeito à educação ambiental...
4:25 am
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