Thursday, April 06, 2006

O gato, a raposa e Sir Miguel Sousa Tavares


Concedo que me agrada uma porção considerável do que o Miguel Sousa Tavares (MST) escreve. Muitas vezes agrada-me a sua irreverência, outras a sua lógica e lucidez, e outras ainda a sua escrita mordaz e descomprometida. Mas de vez em quando não consigo entender a sua arrogância e, mais raramente, a sua natureza manipuladora. Pode ser que seja uma brincadeira de 1 de Abril, mas não me contenho e não vou esperar por Sábado.

Considere-se a sua última crónica no Expresso (01-04-06): ligar a verdadeira novela que foi a saída do gato Humphrey do nº10 de Downing Street para a proibição da caça à raposa a cavalo em solo britânico é uma enormidade. Vamos por partes:

Humphrey, “Chief Mouser to the Cabinet Officer”

O gato Humphrey deve o seu nome a Sir Humphrey Appleby - da série Sim, Senhor Ministro - e, rezam as crónicas, entrou na residência oficial do Primeiro Ministro britânico com a Lady Margaret Tatcher. E foi ficando. Passou Major, e quando Tony e Cherie Blair para lá se mudaram, e por alegada incompatibilidade entre Humphrey e a família Blair (Cherie é aparentemente alérgica a pêlo de gato), foi enviado para a casa de uma ‘civil servant’ reformada. A comoção foi tanta que jornais a sério como o The Guardian e o The Independent não tiveram outra opção que não relatar os factos subsequentes ao seu desaparecimento.

Humphrey esteve durante 8 anos numa posição privilegiada para observar os grandes acontecimentos políticos da Grã Bretanha. Era o Controlador de Pestes da residência oficial do Primeiro Ministro britânico, que é uma casa típica do século XVII, e durante bastante tempo e por apenas 160€ por ano em comida e veterinários deu cabo dos ratos. Fez muito melhor que as enormes quantias de dinheiro gasto em renovações arquitectónicas. E bem mais barato e eficaz que o controlador de pestes contratado para o efeito. “I can do business with Humphrey”, foi a distinta Lady Tatcher apanhada a dizer. Era o seu “Chief Mouser to the Cabinet Officer”.

Durante os últimos anos da sua vida, como cerca de 35% dos gatos, desenvolveu um problema renal. Aparentemente, e segundo os Blairs e um jornalista destacado para confirmá-lo, foi entregue a uma senhora que tratava dele em Downing St. para fugir ao ritmo alucinante desse lugar e gozar tranquilamente a sua reforma num subúrbio londrino, onde fez como amigo um peixe dourado (imagine-se porquê).

Agora, MST não foi o único a aproveitar-se politicamente de Humphrey...

Como adoptar politicamente um tareco

O gato Humphrey sempre serviu de distracção política, uma vez usado por uns, outras vezes por outros. No tempo de John Major, primeiro ministro dos Tories (conservadores), sempre que a libra esterlina perdia valor ou se demitia um ministro (ou qualquer outra barraca), anunciava-se que Humphrey tinha sido posto numa dieta especial.

Em 1994, anunciava-se que era acusado de ter morto quatro piscos-de-peito-ruivo – ao que John Major “himself” respondeu que o gato tinha sido falsamente acusado. A imprensa inferiu que de facto Humphrey tinha “filado” os piscos, mas não se sabia se tinha sido por dinheiro ou por prazer...

Os seus últimos anos foram problemáticos: quando Tony Blair chegou ao poder, os tablóides resolveram atacar Cherie Blair dizendo que esta era alérgica a gatos e queria ver-se livre de Humphrey. Cherie foi obrigada a publicar uma foto com o gato para provar o contrário, mas não foi suficiente para acalmar os media e a situação.

Quando o Humphrey se retirou para o subúrbio, alegadamente para viver a tal reforma dourada, o deputado Tory Alan Clark insistiu que o tareco tinha sido assassinado e que queria ver o corpo. Observadores independentes confirmaram que estava vivo. Morreu semanas depois no seu retiro dourado. Humphrey chegou a ser fotografado em cima de jornais do dia para provar que estava vivo.

Como MST adoptou o tareco

“...A Associação de Defesa dos Animais interrogou, com indignada consternação: como é que Blair poderia governar a Inglaterra e a Inglaterra aspirar a voltar a governar o mundo, se nem sequer conseguia impedir o gato de comer o canário?”

1 – Não era um canário, eram piscos-de-peito-ruivo, e logo 4.
2 – Não foi na era Blair, mas sim na era Major (1994), um Tory (como quase todos) a favor da caça à raposa
3 – Que associação de defesa era essa, uma vez que nenhuma das duas maiores associações de defesa dos animais (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals e People for the Ethical Treatment of Animals, PETA) falam do caso? Não encontro registos de tais reclamações em nenhum lado.

Até aqui tudo bem, liberdade criativa. Mas depois salta para:

“Foi por essa altura que Blair, pressionado pela Associação de Defesa dos Animais, tomou a histórica decisão de proibir a caça à raposa a cavalo – talvez o mais fantástico espectáculo que se pode ver no campo e fonte de inspiração para pintores como Hobarth e Constable. Com isso, ele livrou-se das complicações criadas com “Humphrey” e voltou a restabelecer a sua reputação junto de um poderoso lóbi eleitoral”

Não, nada disso:

1 – Blair nada tem a ver com canários, nem sequer com piscos-de-peito-ruivo (1994), logo não podemos associar uma coisa à outra.
2 – A discussão sobre esta proibição vem do primeiro mandato de Blair, há pelo menos uns 7 anos, e a lei anti-caça passou em Novembro de 2004.
3 – “Talvez o mais fantástico espectáculo” é basicamente igual a dizer que pôr cinquenta macacos a cavalo (ainda que de vermelho, fazendo pausas para chá, com as mulheres a cavalgarem de lado como é da praxe) e cinquenta cães atrás de uma raposa indefesa é um espectáculo. Cinquenta cães a uma raposa é um espectáculo. Especialmente quando há sangue e morte lenta, é um espectáculo. Não entendo. Mas eu não entendo a tourada, por isso não vão por mim. O que interessa é que a premissa humphrey-canário-proibição está completamente errada.
4 – De Hobarth não encontro nada que se relacione com o assunto. Quererá MST falar de Hogarth? Constable (1776-1837) de facto pintou estas cenas. Mesmo assim, são os três do século XVIII-XIX. E pelo menos um deles dedicou a sua pintura à escravatura, que também custou a banir. Como a caça à raposa a cavalo.
5 – A justificação para banir a caça à raposa não pode ter nada a ver com a linha de raciocínio de MST, como penso ter demonstrado. Tem a ver com outros lóbis e com outras razões. Não desminto que o lóbi anti-crueldade é forte. Mas querem vocês acreditar que o lóbi dos grandes proprietários rurais ingleses (nomeadamente a Countryside Alliance) é menos poderoso?
6 – Se querem ter uma opinião sobre o assunto (crueldade na caça à raposa), por favor vão ler mais sobre o assunto. Mas não vão na patranha do MST. Ou na minha.

MST conclui com:
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“Mas era preciso dar satisfação ao chamados amigos dos animais. Esses tais que pensam que, protegendo o gato, se protege o canário e protegendo a raposa, se protegem as galinhas de capoeira e as aves selvagens. E que todos viverão felizes para sempre, nessa Arca de Noé sem Noé, que imaginam ser a natureza. Agora, “Humphrey” está morto. Haja alguma coisa de verdadeiramente natural que eles não conseguem mudar!”

Sir Miguel, não vamos falar de manipulações. Passemos ao chá das cinco directamente, pode ser?

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