Agosto de 2005
Os primeiros dez dias no campo foram, no mínimo e como de costume, muito intensos. Resultados práticos, só um animal imobilizado, dos 5 a que nos propomos. Mas já lá vamos.
Como vos contava no mail anterior, o Pieter está incapaz de vir para o campo, para grande infelicidade de todos. Quer isto dizer que pela primeira vez em 4 anos (10 para a restante equipa) não podemos contar com os seus 20 anos de experiência de imobilização de animais, a capacidade de raciocínio fino e liderança, o poder de decisão executiva, e toda a tranquilidade que nos dá trabalhar com um homem que nunca em mais de milhentas imobilizações sofreu sequer um arranhão. Logicamente, todas as tarefas dele foram passadas para cada um de nós, e contamos ainda com o telefone satélite para entrar em contacto com ele em caso de pânico absoluto.
A mim calhou-me a responsabilidade de imobilizar animais: decidir quantidades de anestésico, preparar os dardos, decidir sobre a posição dos animais e se há condições de segurança para a imobilização, disparar os dardos, colher as amostras, e sobretudo (o que me dá os mais incríveis calafrios na espinha), avaliar uma nova combinação anestésica nunca testada nos “nossos” leões, isto de forma segura para animais e operadores. Claro que tinha de ter sido eu a sugerir alterar o protocolo anestésico para não ter de esperar 4 ou 5 horas para um animal recuperar da anestesia, usando uma combinação que permite reverter a anestesia de forma a que o animal possa andar, correr e caçar uma hora depois de ter sido posto “knock out”.
Ora isto é extremamente importante. Não porque não goste de esperar pelos animais, pelo contrário. Eu e o Pieter sempre adorámos esperar, enquanto bebemos a cerveja da celebração, fumamos cigarros e discutimos tudo e mais umas botas, isto, perdoem-me, enquanto gozamos com a “moca” do animal recém anestesiado. Às vezes ficam completamente ridículos, pobres, a cambalear, rebolar no chão, trocar as patas, mais ou menos o que me acontece algumas sextas-feiras à noite. Nada de extraordinário, mas como devem calcular, isto coloca um animal (qualquer que seja, mesmo o “rei da selva”) numa posição de horrível vulnerabilidade.
Se descontarmos as ameaças vindas de outros leões, basta pensar o que não faria a um leão anestesiado e cambaleante um elefante, um grupo de hienas, chacais, uma mamba (cobra mortífera), um hipopótamo, ou mesmo um búfalo, uma zebra, ou um wildebeest. Outros leões podem agarrar a oportunidade de matar a “competição” (no caso dos machos) e tomar conta do território, ou matar uma fêmea (mesmo outras fêmeas podem fazê-lo). O estado em que fica um animal anestesiado é muito confuso, e quem tem gatos sabe que a curiosidade dos outros “gatos” pode revelar-se letal. A verdade é que quando imobilizámos a Juliette há dois anos atrás, o Romeo (sim, chamam-se mesmo assim) tentou aproveitar a situação para obter algum (muito) sexo grátis. Tivemos de o afastar quase à pancada, ou seja, land rover para cima. Sacaninha!
E se o leão cai muito mal, ou fica preso, ou entra inadvertidamente na água, morre ou fica seriamente ferido. Transforma-se numa presa fácil. No Okavango isso paga-se caro. E por culpa de quem? Nossa, por assim dizer. Por isso nunca abandonamos uma animal até este estar capaz de se defender. Pode levar algumas horas, e para falar verdade, que podemos nós com dois land rovers contra uma manada de elefantes? Não é propriamente fácil, nós próprios nos transformamos em alvos... Por isso, vá de experimentar a combinação (ketamina / medetomidina) que já tinha testado em leões cativos, com óptimos resultados.
Durante os primeiros dias andou toda a gente muito nervosa com a alteração. No fundo estamos a mudar tudo o que nos dá confiança (não há Pieter, novo protocolo de anestesia, dinâmica de grupo muito diferente, etc. etc.), e numa profissão de grande risco como esta é muita coisa a mudar. Tínhamos planeado mudar a anestesia com o Pieter no controlo da situação, obviamente. Mas não está ele, seguimos eu e a Kate. O restante grupo de investigadores (que eu adoro como uma segunda família) segue confiante nas minhas capacidades e elegeu-me responsável por esse departamento nervosa mas decididamente. A todo o momento me fazem sentir capaz e seguro, ajudado e animado. Confiam em mim e eu confio neles de forma absoluta.
Todos os dias (quase) me encontram os leões com quem temos de trabalhar, de forma extremamente profissional. É um trabalho duro, que começa todos os dias sem excepção às 6 da manhã, e acaba perto das 6, 7 da tarde. Eu participo activamente na busca, e controlo toda a parte médica / laboratorial. Laboratorial quer dizer saír para Maun às 6 da manhã, fazer duas horas e meia de land rover sobre areia, mato, estrada de calcarite e um mísero bocado de alcatrão, processar as amostras sobre pressão (têm de estar com a DHL antes das 3 e meia), comprar comida, bebida, reparar equipamentos, fazer múltiplos recados, e voltar. Ontem nem tempo tive para comer senão às 6 e meia da tarde antes de saír para o mato outra vez. Chega-se a casa às 9 da noite morto, uma cerveja à volta da fogueira e cama que às seis já se trabalha. Para quem pensava que vinha para cá de férias, desengane-se...
Voltando ao novo protocolo anestésico, foi utilizado na primeira ocasião que tivemos para imobilizar um animal. A Chianti, leôa incrível de tão bonita, calma, o leão mais “cool” do mundo. Conseguimos chegar-nos a uns míseros 5 metros dela sem que se tivesse sequer tentado levantar-se. Prepara-se o dardo num local distante e invisível para a “rapariga”, carrega-se a arma de pressão, coloca-se o dardo, e volta-se ao local do crime. Calma como de costume, apontar ao quadril (ou seja, o proverbial dardo no rabo), pum, leoa a olhar para a árvore a pensar que raio lhe terá caído em cima (nunca se dispara um dardo sobre um animal com este a olhar para nós, por razões óbvias). Vá de comer o dardo (rai’s a parta, a 15 US$ o dardo...), deitar, e em cinco minutos (!) estava a “dormir”. Afastámos a Clairette para podermos trabalhar na Chianti, e quando voltámos eu e a Kate saímos para mudar coleiras, colher sangue, examinar o animal de alto a baixo, colher outras amostras, fotografar dentes, etc, enquanto o Angus se coloca o tempo todo em cima do land rover a vigiar a Clairette e outros animais. Não queremos ser surpreendidos por um leão curioso, como devem compreender, por isso o vigia NUNCA tira os olhos dos outros leões.
30 minutos depois, coleira verificada e leão examinado, injectei o antídoto do anestésico. 15 minutos depois já mexia a cabeça e abanava as orelhas, 25 minutos depois já estava em posição esternal com a cabeça levantada a olhar para o horizonte, 40 minutos depois já estava a receber carícias (esfreganço de cabeças, lambidelas, ronronados, etc) da Clairette, e uma hora depois avançámos sobre elas para ver que tal. Levantou-se de forma totalmente coordenada e calmamente afastou-se de nós, sem qualquer percepção da nossa influência no seu estado de confusão anterior, e completamente capaz de andar, correr, caçar se quiser, e sobretudo defender-se. É claro que apareceu um elefante agressivo enquanto a Chianti ainda estava sozinha sem a Clairette, o que nos deu um valente susto, mas conseguimos afastá-lo com umas quantas buzinadelas, acelerações agressivas, e cargas directas sobre ele com os carros. Foi-se embora. A Chianti nem pestanejou, de tão cool que é. Foi um retumbante sucesso. Uma hora e meia de trabalho, em vez de 5 ou 6. Toda a gente em êxtase, como calculam. Nunca uma cerveja me soube TÃO bem!!! A ver vamos como correm agora as seguintes imobilizações.
Beijos e abraços e saudades,
Rodrigo

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