Ortomixoquê ou o virus da gripe
Tenho sido abordado por amigos, tentando saber da minha opinião sobre quais as reais possibilidades de acontecer uma pandemia de gripe das aves entre os humanos. Porque considero o assunto bem sério, aqui vai. É um tema compexo, mas aqui ficam uns quantos factos, que considero (todos eles) importantes para podermos todos ajudar. Vou tentar simplificar o mais possível:
* 3 tipos de vírus da gripe - A para aves (e mamíferos, como o Homem), B para humanos, e C para humanos e porcos. O que anda aí na ribalta é A, das aves. Os vírus que costumam andar entre nós são normalmente do tipo B ou C. (A família do vírus, para os mais interessados, é Ortomixoviridae)
* H5N1 - O H e o N são letras que representam as proteínas que se encontram à superfície do vírus. Os números representam as variantes de cada uma das proteínas de uma determinada estirpe do vírus. Assim, a estirpe do vírus da gripe que por aí anda na passarada tem a proteina H variante 5 e a proteína N variante 1, e chama-se assim por causa disso. É uma estirpe especialmente virulenta, ameaçadora. Um perigo.
É contra estas proteínas da superficie do vírus que o nosso sistema imunitário monta a sua defesa, e o facto de haver várias variantes dificulta e muito essa tarefa: a defesa montada contra uma proteina H1 poderá não parar, por exemplo, um vírus com a variante H3. Sempre que aparece uma nova variante perigosa e o nosso organismo não foi exposto a ela (ou a uma vacina contra ela), sofremos mais com isso. É também a razão por detrás do facto de a vacinação contra um vírus H1N1 poder não funcionar para um H2N2.
* Passarada afectada - Até hoje já se descobriram nas aves 14 variantes da proteína H e 9 da N, e todas as possíveis combinações destas. O vírus da gripe das aves (o tal tipo A) encontra-se distribuído por todo o mundo, e a distribuição mundial deste é da responsabilidade primária (mas não única) das aves migratórias, particularmente Anseriformes (patos, etc.). Afecta pelo menos 12 Ordens, 22 Famílias e 88 espécies de pássaros. O número total de espécies afectadas é concerteza MUITO maior.
As aves domésticas como o perú, galinha, ganso, pato e faisão são susceptíveis. Os pássaros selvagens que cá temos também são susceptíveis, desde as rapinas à andorinha (e passando pela gaivota, pombo, etc), de serem infectadas. Ou seja, se aparece aí um pato migratório infectado, é provável que a doença pegue, tal é o espectro de potenciais vítimas. Passa de ave para ave de variadas maneiras, dependendo da estirpe do vírus, espécie de ave e factores ambientais. Mas será potencialmente pelas fezes e através de aerossóis, pelo ar, vindos do sistema respratório (como na nossa gripe). Parece que a doença raramente se espalha de aves domésticas para outras aves domésticas em explorações vizinhas, o que facilita o controlo sanitário da situação. O risco são mesmo as aves migratórias. Mas, para ajudar ao puzzle, espécies de mamíferos também podem ser infectados (porcos, etc etc) e mesmo infectar aves. E o homem, como explico a seguir.
* Como se transmite ao homem - O porco parece ser o grande responsável, uma vez que é susceptível, como os outros mamíferos, ao tipo A (aviário) do vírus da gripe. Os vírus da gripe aviária não afectaria "normalmente" pessoas sem passar antes pelos porcos, que permitem a mutação do vírus tornando-o infeccioso para humanos, ou seja, combinando propriedades de um vírus da gripe aviária com a gripe que afecta humanos e porcos (tipo C, ou mesmo B). Durante o tempo em que um porco está infectado com duas estirpes diferentes (A e C ou B), estas misturam-se alegremente até que se forma um vírus recombinante com potencial para afectar humanos. Basta dizer que uma célula infectada com 2 vírus diferentes é capaz de produzir 256 combinações diferentes de vírus. E muito depressa. Basta dar-se o caso de uma estirpe H5N1, altamente perigosa, recombinar-se com uma estirpe que se propague facilmente entre humanos para se dar uma catástrofe. Uma pandemia.
Supõe-se que a maioria de casos de H5N1 em humanos se deu de aves para humanos, sem passar pelos porcos. A estirpe é mortal mas não tem ainda a capacidade de passar de humanos para humanos, que se saiba. Agora, já sabemos que porcos na Indonésia estão infectados com o H5N1. E como os porcos são fábricas de vírus, o risco aumenta. Assim que passar de humanos para humanos, com a taxa de mortalidade que se adivinha, teremos um gravíssimo problema. E o pior é que nem tem de passar de porcos para humanos. O mesmo fenómeno de recombinação de estirpes acontece no homem, porque também nos infectamos com o H5N1 e com os nossos típicos vírus da gripe, especializados em transmitir-se de pessoa para pessoa, como todos sabemos. A Reuters tem notícias sobre o assunto no departamento World Crisis. Muita atenção. Pode também dar-se o caso de as combinações resultarem menos perigosas e safarmo-nos desta. Mas olhemos para a história:
* Pandemia - Uma epidemia descreve-se como uma ocorrência de um número anormalmente grande de casos de doença numa população (de humanos, animais, etc) num determinado período de tempo (p.ex. 1 mês, ou um ano). Por exemplo, e como dizia antes, aparece uma estirpe nova para a qual ninguém está preparado e registam-se mais casos (incluíndo mortais) de gripe do que seria de esperar num ano considerado "normal". Uma pandemia é, no fundo, uma grande epidemia que alcança um grande número de indivíduos (uma grande proporção da população) e não respeita fronteiras. Da Ásia à Europa ficaríamos todos sujeitos a uma enorme carga de trabalhos. Uma "endemia" é uma ocorrência "normal" de casos de uma doença presente numa população, e é para esta situação que tende uma epidemia ou pandemia, à medida que os indivíduos ganham resistência e o vírus deixa de ser "novidade". Uns paralelos para ajudar:
Holanda, 1993, ano normal (não epidémico, portanto endémico) - 657 mortes consequência directa da gripe e >6000 mortes como consequência indirecta. 1293 mortos em acidentes de viação.
Espanha, 1918/1919, Pandemia (Gripe Espanhola) - 20-40 milhões de mortos em todo o mundo. A guerra de 1914-1918 matou aproximadamente 9 milhões de pessoas. Convém explicar que a taxa de mortalidade (percentagem de casos de doença que levaram à morte dos afectados) nos países desenvolvidos foi de 0,5% (5 mortos por cada 1000 doentes), e nos países sub-desenvolvidos (Samoa, Alasca) foi de aproximadamente 50%, 5 mortos por cada 10 doentes. O avanço da medicina não deveria permitir outra mortandade destas, mas esta é uma estirpe particularmente perigosa. E já sabemos que não há nem vacina nem tratamento para todos.
Anos em que houve pandemia: 1732, 1781, 1802, 1830, 1847, 1857, 1889, 1918 (H1N1), 1957 (H2N2), 1968(H3N2) e 1977 (H1N1). Se olharmos para o intervalo de tempo médio entre pandemias - 24,5 anos - estará a chegar a hora de outra?. De referir também que as pandemias de 1918, 1957, 1968, e 1977 foram causadas por estirpes do tipo A, das aves, que passaram para o Homem. Para reforçar a ideia do efeito "devastador" inicial e tendência amenizadora subsequente, basta dizer-lhes que as estirpes de 1968 e 1977 ainda circulam entre nós, mas já não causam um número anormal de mortes por ano. Se bem que elevado, como se pode ver pelo caso da Holanda que referi atrás.
Aconselho vivamente atenção redobrada a estes sites, porque a coisa, na minha opinião, não está mesmo para brincadeiras:
OIE
Avian Flu
New Scientist
Uma grande dose de vitamina C para todos vocês...

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