29 de Agosto de 2005
Olá!
Como ainda não recebi ameaças de morte, vou continuar a mandar e-mails.
Bom, agora que o campo passou a albergar apenas família e investigadores, o trabalho tem corrido melhor. Entre amigos da Kate, dos miúdos, equipas de televisão e gente chata que sempre aparece estivemos até aos olhos com solicitações. O novo protocolo para tratar amostras resultou a 100% - mandaram dizer de Glasgow – e podemos fazer tudo a que nos propomos. Além disso tive de suar para ultrapassar uns problemas com os dardos que estamos a usar, mas já imobilizámos mais duas fêmeas (a Clairette e a Krystal), e preparo-me para imobilizar dois machos que andam pela zona, o Riscal e o Rioja. São sub-adultos, e apesar de já terem tamanho e peso de macho adulto (e uma juba minúscula, ehe) ainda se comportam como crias. Sempre metidos no mato às escondidas de toda a gente. Simulam ataques aos carros (cargas, como lhes chamamos), mas de uma forma patética. Tal e qual um gato que acaba de sofrer um dos típicos ataques de cinco minutos de correrias pela casa e que de repente se dá conta do ridículo da sua situação, lambem a pata e amuam. O facto de andarem sempre metidos no mato dificulta e muito o meu trabalho, mas esta semana vamos “despachá-los”. Com isto fica o trabalho feito, e o resto, se vier, é lucro. 12 dias de lucro ainda deve dar para alguma coisa, espera-se.
O que é estranho é que mais de metade dos nossos animais... desapareceram. Dos 35 animais que estudamos 20 simplesmente desapareceram. Algumas das fêmeas que têm crias ou sub-adultos com elas desapareceram para fugir aos machos que tomaram conta dos territórios, julgamos nós, os machos não se sabe se morreram em combate ou simplesmente tomaram conta de outros territórios, e os próprios machos que tomaram conta da área andam desaparecidos. É um estranho vácuo, que não é novidade para nós, mas deixa um amargo sabor na boca. Especialmente porque a nossa área de estudo está cheia de água e animais, suculentos, rechonchudos e prontos para o banquete.
Agora que o Botswana voltou a autorizar a caça nesta secção do Okavango, todos os animais começam a agir de forma diferente. Desde que cá estou já mataram 4 elefantes, e nota-se que estes se tornam mais agressivos a cada dia que passa. Ontem enquanto andava à procura dos nossos desaparecidos fui carregado por três elefantes. De repente saiu-me uma fêmea (seguida de 2 outras) de uma curva, a uns 20 metros do carro, já em plena carga. Ainda deu tempo para pôr a marcha atrás e saír desenfreado, o que deixou fêmea confusa durante um segundo, pelo que desacelerou. Com esse segundo deu para fazer inversão de marcha, mas ainda vi um elefante a 5 metros antes de conseguir voar dali para fora. Ainda carregou por mais 100 metros, num total de 200 metros de carga. Raro, muito raro, e que sorte. Quando carro = tiros acabamos por sofrer todos.
Ontem chegou um grupo de caçadores com licença para caçar um leão. Espero que matem um dos nossos velhotes que já tenha reproduzido e muito, ou um leão que eu não conheça. Apesar de saber que não há nada a fazer e que não me devo ligar a animais que não são de forma alguma meus, confesso que estou num estado de angústia. Vou fazer por não saber, se me deixarem. Dos 120-130 leões que andavam por aqui há 10 anos, estávamos com 35, agora 15 (esperemos que volte aos 35). Matar leões não me parece solução, mas política é... política.
Para acabar numa nota positiva, fomos convidados pelo governo da Zambia para fazer um censo (contagem) de animais em toda a extensão do país, e iniciar um programa de investigação num dos maiores parques do país, na fronteira com Moçambique. O Pieter e a Kate já o tinham feito no Botswana, agora vamos extender-nos para a Zambia, e no próximo ano vamos começar a investigar também na África do Sul. Com um pouco de sorte Moçambique e Angola serão os próximos da lista. Andamos todos entusiasmados com estas perspectivas, e entre muda de pneus e remendo de câmaras de ar vamos falando sobre o nosso futuro. Com leões.
Beijos, abraços e saudades,
Rodrigo

0 Comments:
Post a Comment
<< Home